sábado, 28 de fevereiro de 2015

A LUTA PELO DIREITO À CIDADE - O CARNAVAL DE BH 2015 NÃO ACABOU

         Por Rubens Aredes, Leonardo Bulhões e Clayton de Oxaguiãn

       Quem vê as notícias sobre o Carnaval de BH 2015 nas mídias, ou até mesmo os foliões que este ano saíram pela primeira vez nas ruas da cidade sem conhecer o que aconteceu nos anos anteriores, pode até acreditar nas propagandas da Belotur, Skol, Tim e prefeitura de Belo Horizonte.  Juntas, elas estão dizendo que a prefeitura, com o patrocínio destas empresas via Lei estadual de Incentivo à cultura, trouxeram de volta o Carnaval para a cidade que até alguns anos atrás ficava vazia na festa momesca. Mas essa é só uma das mentiras do prefeito-empresário Márcio Lacerda e sua equipe de empresários e marqueteiros.


            Pra quem não sabe, BH sempre teve carnaval. Quando a classe trabalhadora morava nos bairros Barro Preto e outros nas regiões centrais, as escolas de samba desfilavam na Av. Afonso Pena e tudo mais. Com o crescimento da cidade, a elite racista e moralista higienizava a cidade, expulsando os trabalhadores de suas casas – o que deu origem a muitas das favelas da cidade – e consequentemente combateu o Carnaval. Durante muito tempo os blocos e os desfiles foram realizados nas periferias, quase escondidos do grande centro.
            A luta pelo direito à cidade sempre foi uma luta necessária da classe trabalhadora que sofre com o transporte público caro e ruim, com a falta de banheiros públicos nas regiões de grande circulação da cidade e com a falta de espaços de lazer. A gestão Márcio Lacerda é marcada pelo caráter privatista da cidade. Suas ações são voltadas para o esvaziamento dos poucos espaços de lazer, para maior elitização das regiões centrais da cidade e ao fomento de atividades de lazer que geram lucros para seus amigos empresários ao mesmo tempo que cerceia a classe trabalhadora do direito ao lazer e à cultura.
            Em 2010, Márcio Lacerda sancionou uma lei que proibia festas na Praça da Estação, uma das maiores e mais importantes praças da região central da cidade. Enquanto isso, a população viu a prefeitura dar alvará para empresas privadas fecharem a praça para fazerem eventos fechados com cobrança de ingressos. Neste mesmo ano, Lacerda tentou cancelar o FIT – Festival Internacional de Teatro – uma conquista da cidade e dos movimentos de arte e cultura.
            Começou assim: trabalhadores da arte e da cultura da cidade chamando o povo para ocupar as ruas, ocupar a cidade. Logo o ciclo universitário atendeu ao chamado. A Praça da Estação virou Praia da Estação e no carnaval de 2011, blocos de resistência começaram a pipocar. Muitos dos blocos em 2011, 2012 e 2013 tiveram que enfrentar bombas de gás e bala de borracha por simplesmente ocupar ruas e praças com cores, brilhos e música. Mas quanto mais reprimidos eram os blocos de rua, maior o carnaval do ano seguinte ficava; mais críticos, libertinos, coloridos e brilhantes!
            A prefeitura teve que engolir e, para o carnaval de 2014, teve que se abrir e negociar com blocos sobre organização do trânsito no percurso dos blocos, banheiro químico e estrutura mais geral. Os relatos dos organizadores dos blocos é que em boa parte ela não cumpriu os acordos. Neste carnaval de 2015, o tamanho do público foi recorde, foi para muito além do ciclo universitário e artístico, arrastando multidões, e o carnaval de BH foi manchete de jornais país afora. A luta pelo direito à cidade e contra o prefeito venceu e o carnaval de BH renasceu. Os libertinos venceram os moralistas, parafraseando o hino da Alcova Libertina. Essa história precisa ser contada. Não foi a Prefeitura, nem a Belotur com patrocínio da Skol e da Tim que fizeram o carnaval dos blocos de rua renascer. Foi a luta dos trabalhadores da arte e cultura com a juventude do ciclo universitário e todo o povo folião que arrancou o direito ao carnaval.
            Outra conquista do carnaval de rua foi se fazer repercutir para o restante da cidade. Nas periferias blocos renasceram, blocos caricatos e escolas de samba se revitalizaram e voltaram a ocupar a principal avenida da cidade para efetuar seus desfiles, como era antes das políticas de higienização da cidade.
            Parabéns a todos que, de formas ozadas, participaram dessa luta: organizadores dos blocos, escolas de samba, blocos caricatos, artistas, juventude universitária, trabalhadores e todos os foliões. Então, vocês brilharam!

OS MORALISTAS, ENQUANTO EXISTIREM, NÃO PARAM.

            Passados os dias de folia, chegam as tristes notícias. Mesmo com o recuo da prefeitura quanto aos blocos de ruas, inúmeros relatos de repressão policial nos chegam, em especial em blocos afastados do centro ou com maior aglomeração de população negra. Casos de racismo em que a polícia é a protagonista da opressão. Autoritarismo da prefeitura quanto a tentar “disciplinar blocos”. Cerceamento do direito de ir e vir, em especial no bairro Santa Tereza.
            E apesar de haver cumprido alguns acordos mínimos com os blocos (outros não), a prefeitura e a Belotur se mostraram incompetentes com a estrutura e organização da cidade para o carnaval. Dos blocos, não faltam reclamações. O trânsito não foi fechado com a antecedência necessária para garantir o percurso dos blocos, a programação foi feita muito em cima da hora, não há transparência e comunicação entre os órgãos da prefeitura, sem apoio logístico ou qualquer tipo de financiamento, os equipamentos de som que os blocos conseguem garantir com o próprio recurso não é apropriado, faltaram ambulâncias, postos de saúde móvel, lixeiras, banheiros químicos e até mesmo itens básicos de comércio. Na metade do desfile das escolas de samba, a água mineral para as arquibancadas havia acabado obrigando o público a ficar com sede.
            Para piorar a situação, prefeitura e patrocinadores, em especial a Skol, se apropriam do trabalho dos blocos para fazer seu marketing. O tema oficial do carnaval pela prefeitura foi “BH, a casa é sua e a festa também!” Nada mais falso e hipócrita vindo de uma prefeitura que reprime as manifestações artísticas e busca controlar o uso do espaço público pelos trabalhadores. Como se não bastasse, os principais blocos de rua se organizaram após a folia e soltaram uma nota de repúdio à Skol, patrocinadora da prefeitura, por ela utilizar imagens dos blocos e dos artistas e produtores dos blocos para fazer propaganda. Nenhum bloco recebeu recurso algum da Skol e nem da prefeitura para serem usados como propaganda. Leia a nota aqui: https://www.facebook.com/carnavalderuaBH/photos/a.140392249357321.28066.137013919695154/861870807209458/?type=1


            O CARNAVAL 2016 SERÁ DE MUITA LUTA, E A LUTA COMEÇA AGORA!

            Em entrevista à rádio CBN, o prefeito Márcio Lacerda sugeriu restringir o número de blocos na cidade, ou seja, criminalizar e proibir a população de criar mais blocos. E a despeito da experiência negativa dos blocos com a patrocinadora Skol, Márcio Lacerda ainda sugere ampliar os patrocinadores. Ele explica que, em função da crise financeira pela qual passa o país, é preciso enxugar as contas da prefeitura, fazendo cortes orçamentários. Ele levanta a possibilidade de cortar recursos de editais voltados para o financiamento de atividades artísticas e culturais da cidade e não mais repassar verba pública para o próximo carnaval. No site da Belotur, a prefeitura faz um chamado claro aos empresários Brasil a fora para que venham se esbaldar numa lambança de lucros sem fim, porquê: "O Carnaval 2015 adquire status de produto turístico"
            Mas os blocos de rua estão se organizando e preparando para montar as barricadas. Aos blocos, nosso maior apoio!
            Nós do PSTU somos contra qualquer corte orçamentário nas áreas sociais. É preciso se investir mais na educação, saúde, moradia, lazer, esporte e cultura. Os trabalhadores do mundo não tem culpa da crise econômica gerada pela ganância dos patrões no mundo afora. Que os patrões paguem pela crise! Boa parte do orçamento público da prefeitura de BH está voltado para pagar dívidas com bancos e empresas, os mesmos bancos e empresas que financiam as campanhas dos políticos tradicionais e que querem se aproveitar do nosso belo carnaval. Que se corte o orçamento daqueles que querem acabar com nossa festa e nossos sonhos!
           
Para o carnaval de 2016, defendemos um programa para os trabalhadores:

- Nenhum centavo a menos. Nenhum corte orçamentário das áreas sociais e cultura
- Manutenção de todos os editais para a cultura com ampliação do fundo municiapal de cultura
- Auditoria da dívida pública
- Construção de uma comissão permanente de carnaval para definir a estrutura, logística e organização da festa.
- Que essa comissão seja eleita democraticamente em assembleia dos blocos de rua e composta por representantes dos blocos com mandatos revogáveis e com participação de representantes dos diversos órgãos da prefeitura que operacionam o carnaval. Que os representantes dos blocos estejam em maioria nessa comissão.
- Que essa comissão delibere sobre as ações da Bhtrans, Belotur, SLU, policiamento, postos de saúde, ambulância e segurança durante a festa, com o apoio dos órgãos responsáveis.
- Que essa comissão escreva projeto de decreto para viabilizar a festa conforme o interesse popular e dos trabalhadores
- Banheiros químicos em quantidade suficiente durante a festa e banheiros públicos e lixeiras nas áreas de circulação o ano todo.
- Tarifa zero para os trabalhadores possam ir e voltar dos blocos que quiserem.
- Comissão de combate ao machismo, racismo e LGBTfobias no Carnaval com ouvidoria e estrutura.
- Liberdade para ambulantes trabalharem sem controle da prefeitura
- Financiamento público de toda a estrutura do carnaval e dos blocos de rua, o som precisa ser para todos.

- Não à privatização do carnaval de BH.

0 comentários:

Postar um comentário